Clínica da sexualidade: uma análise profunda, mas nada explícita
No consultório, certa vez ouvi de um cliente uma frase que me marcou:
“Estamos aqui fazendo uma análise aprofundada de como eu transo”.
Ela me chamou a atenção por dois motivos. O primeiro era sua precisão psicológica. O segundo, por um certo paradoxo: boa parte do trabalho clínico em sexologia não tem nada de explícito.
Claro, às vezes alguns clientes trazem detalhes, até porque certas questões pedem passagem por eles. Mas, de modo geral, o que acontece no consultório são análises profundas sobre a maneira como alguém está presente na intimidade, sem qualquer descrição gráfica.
Por que a sexualidade na clínica é raramente gráfica
Na clínica psicológica da sexualidade, o modo como cada pessoa se faz presente no sexo costuma ser mais importante do que o conteúdo manifesto do diálogo entre os corpos.
Isso porque a forma como alguém se expressa na intimidade raramente se limita ao momento sexual. Costumam aparecer ali modos de se vincular, de se expor, de sustentar presença, de lidar com o desejo e de se deixar afetar pelo outro — aspectos que muitas vezes também se manifestam em outras áreas da vida.
Também entram em cena camadas mais profundas: o que cada um vive como masculino e feminino, o quanto se sente à vontade para conduzir ou se deixar conduzir, para pedir ou acolher, para afirmar a própria vontade ou responder à vontade alheia.
Por isso, na clínica, uma análise profunda de como alguém transa costuma passar menos pela descrição do corpo e mais pela compreensão da vida psíquica que nele se expressa. Afinal, na intimidade, o corpo não apenas age: ele revela.
